Balsas
Fatia 4.08g
- País: Brasil
- Ano achado: 1974
- Classificação: Siderito IIIAB
- Massa total: 41 kg
- Queda observada: Não
Balsas
Em meio às vastas terras da Fazenda América, no sul do Maranhão, um visitante do espaço repousava há milhares — talvez milhões — de anos, até ser finalmente descoberto por acaso em meados de 1974. Durante uma vistoria rotineira da propriedade, Mário Rodrigues, capataz do rancho de gado, percebeu algo incomum no final de uma longa vala recém escavada. A trincheira, com cerca de 50 metros de extensão e 50 cm de profundidade, revelava ao seu final uma massa metálica densa, escura e de aparência peculiar. Com esforço considerável, ele conseguiu removê-la e a levou até a sede da fazenda, de propriedade de Antônio Avelino Kreling. A fazenda situava-se a 80 km ao sul da cidade de Balsas, no Maranhão, e como não havia outra localidade próxima, foi proposto que o meteorito recebesse o nome da cidade: Balsas.
A peça permaneceu por anos na fazenda, até ser transportada ao Rio Grande do Sul em 1982, por um caminhoneiro que também era membro da ACAEFE (Associação de Caçadores e Estudiosos de Fósseis e Espécimes). Apenas em 1997, o meteorito ganhou destaque nacional, quando o Dr. Hardy Grunewaldt tomou conhecimento da descoberta e alertou o Museu Nacional, dando início ao processo de análise e documentação científica.
Pesando 41 kg, o meteorito Balsas revelou-se um siderito do tipo octaedrito médio, pertencente ao grupo IIIAB, um dos mais bem representados entre os meteoritos metálicos. A análise estrutural de uma amostra polida e atacada com ácido nítrico revelou uma fina malha de lamelas de kamacita com largura média de 0,9 mm, evidenciando o padrão Widmanstätten típico dos octaedritos. Esse padrão é resultado de um resfriamento extremamente lento, de apenas alguns graus por milhão de anos, no interior de um núcleo metálico de um asteroide diferenciado. Essa condição permitiu a formação ordenada de estruturas metálicas em níveis microscópicos, impossíveis de serem reproduzidas artificialmente.
Quimicamente, o Balsas contém 8,43% de níquel, 0,51% de cobalto, 20,9 ppm de gálio, 7,24 ppm de arsênio, 0,927 ppm de ouro e 0,397 ppm de irídio, traços químicos que o posicionam com segurança dentro do grupo IIIAB. As análises também revelaram efeitos de choque na microestrutura da kamacita, com padrões hachurados indicando que o meteorito foi submetido a eventos de alta pressão, como colisões catastróficas em sua história pré-terrestre. Apesar de relatos locais que sugeriam uma possível queda observada, os estudos confirmaram que o meteorito não apresenta crosta de fusão nem zona alterada pelo calor, características comuns em quedas recentes. Isso indica que a massa já estava há bastante tempo no solo antes de ser encontrada, oxidando-se lentamente sob o clima tropical do cerrado maranhense.
A origem do meteorito Balsas remonta à infância do Sistema Solar, há cerca de 4,56 bilhões de anos, quando os primeiros planetesimais começaram a se formar e a se diferenciar. Durante esse processo, os elementos mais densos, como o ferro e o níquel, afundaram até o centro desses corpos, formando núcleos metálicos semelhantes ao da Terra. O Balsas representa um fragmento desse tipo de núcleo, e sua trajetória até aqui envolveu colisões, fragmentações e uma longa jornada interplanetária até seu encontro com o solo brasileiro.
O meteorito Balsas é uma das poucas testemunhas siderais do passado violento e fascinante do Sistema Solar encontradas no território nacional. Uma amostra do tipo, com 24 g, está depositada na Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), onde foi realizada parte da caracterização geoquímica. O meteorito Balsas não é apenas uma relíquia metálica do espaço profundo, mas uma conexão direta com os processos que moldaram os mundos — um lembrete de que, mesmo sob os campos de pastagem, o universo pode deixar sinais do seu passado incandescente.
Siderito
Assim como os acondritos, os sideritos são provenientes de corpos parentais cuja matéria primordial sofreu diferenciação. Este material, originário da nebulosa que formou o sistema solar e presente nos meteoritos condritos, sofreu a ação gravitacional ao longo de bilhões de anos dando origem a todos os corpos que conhecemos hoje no sistema solar como o sol, planetas, asteróides, etc. Os sideritos são meteoritos provenientes do núcleo desses corpos parentais onde o material mais pesado se concentrou como o Ferro e Níquel. Apesar de haver um grande número de meteoritos ferrosos já catalogados, a grande maioria não teve a sua queda observada. Somente uma pequena parcela das quedas observadas corresponde a meteoritos sideritos, a grande maioria é representada pelos condritos. Levando-se a conclusão que os meteoritos ferrosos são relativamente mais raros que os rochosos em nosso sistema solar.
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Classe estrutural
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Símbolo
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Camacita [mm]
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Níquel
[%] |
Grupo químico relacionado
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Hexaedritos
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H
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> 50
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4.5 – 6.5
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IIAB, IIG
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Octaedrito Muito Grosseiro
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Ogg
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3.3 – 50
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6.5 – 7.2
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IIAB, IIG
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Octaedrito Grosseiro
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Og
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1.3 – 3.3
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6.5 – 8.5
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IAB, IC, IIE, IIIAB, IIIE
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Octaedrito Médio
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Om
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0.5 – 1.3
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7.4 – 10
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IAB, IID, IIE, IIIAB, IIIF
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Octaedrito Fino
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Of
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0.2 – 0.5
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7.8 – 13
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IID, IIICD, IIIF, IVA
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Octaedrito Muito Fino
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Off
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< 0.2
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7.8 – 13
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IIC, IIICD
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Octaedrito Plessítico
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Opl
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< 0.2
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9.2 – 18
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IIC, IIF
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Ataxito
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D
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-
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> 16
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IIF, IVB
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