Gebel Kamil

Individual 164.000g

  • País: Egito
  • Classificação: Siderito Não agrupado
  • Massa total: 0,001 kg
  • Queda observada: Não
Gebel Kamil

O meteorito Gebel Kamil é um dos exemplos mais fascinantes de impacto meteórico recente no deserto do Saara Oriental, no Egito. Trata-se de um meteorito ferroso, classificado como ataxito, devido ao seu altíssimo teor de níquel e à ausência de figuras de Widmanstätten, típicas de muitos meteoritos metálicos. O corpo original tinha cerca de 1,3 metro de diâmetro e pesava entre 5 e 10 toneladas antes de se fragmentar na atmosfera e atingir a superfície terrestre.

O aspecto mais notável relacionado ao Gebel Kamil não é apenas o meteorito em si, mas sim a cratera de impacto bem preservada associada a ele, conhecida como cratera Kamil. Esta cratera tem cerca de 45 metros de diâmetro e 15 metros de profundidade, e foi descoberta em 2008 através de imagens de satélite, como parte de uma análise sistemática feita com o programa Google Earth. A expedição de campo que se seguiu, realizada em 2009 por pesquisadores italianos e egípcios, encontrou milhares de fragmentos metálicos espalhados ao redor da cratera, totalizando mais de 1.600 kg de material meteórico recuperado.

A cratera Kamil é um exemplo raro e extremamente bem preservado de cratera de impacto hiperveloz em solo rochoso, causada por um objeto de ferro. O que torna essa cratera tão especial é seu estado quase intocado pela erosão, algo raro em criações desse tipo. A sua forma é circular, com bordas definidas, e o material ejetado ao redor segue um padrão radial típico de impactos explosivos. Isso permite aos cientistas estudarem os efeitos imediatos da colisão com um nível de detalhe excepcional.

Kamil Crater: A Meteorite Impact Crater Found with Google Earth | Amusing  Planet

 

A formação da cratera provavelmente ocorreu há menos de 5.000 anos, durante o Holoceno, tornando o evento relativamente recente em termos geológicos. Estima-se que o meteorito tenha colidido com o solo a uma velocidade de aproximadamente 12.000 km/h, o suficiente para liberar energia comparável a dezenas de toneladas de TNT, mesmo sendo um corpo de dimensões modestas.

Os fragmentos de Gebel Kamil variam em tamanho desde pequenos esférulos metálicos até massas maiores de vários quilos. Muitos apresentam superfícies derretidas e recristalizadas, indicando o intenso calor gerado pelo atrito atmosférico e pela explosão no impacto. Por sua natureza metálica pura e sua beleza visual, os fragmentos são altamente desejados por colecionadores e museus ao redor do mundo.

Além do interesse científico, a cratera Kamil fornece uma visão vívida da interação entre corpos extraterrestres e a superfície terrestre, servindo como um laboratório natural para o estudo de impactos recentes. O estudo da cratera ajuda também a compreender os riscos potenciais que objetos semelhantes podem representar para áreas habitadas no futuro, tornando o caso de Gebel Kamil não apenas uma curiosidade científica, mas também um alerta sobre a vulnerabilidade da Terra a impactos cósmicos.

Siderito

Assim como os acondritos, os sideritos são provenientes de corpos parentais cuja matéria primordial sofreu diferenciação. Este material, originário da nebulosa que formou o sistema solar e presente nos meteoritos condritos, sofreu a ação gravitacional ao longo de bilhões de anos dando origem a todos os corpos que conhecemos hoje no sistema solar como o sol, planetas, asteróides, etc. Os sideritos são meteoritos provenientes do núcleo desses corpos parentais onde o material mais pesado se concentrou como o Ferro e Níquel. Apesar de haver um grande número de meteoritos ferrosos já catalogados, a grande maioria não teve a sua queda observada. Somente uma pequena parcela das quedas observadas corresponde a meteoritos sideritos, a grande maioria é representada pelos condritos. Levando-se a conclusão que os meteoritos ferrosos são relativamente mais raros que os rochosos em nosso sistema solar.

Uma vez em ambiente terrestre, os meteoritos ferrosos sofrem menos desgaste que os condritos e, desta maneira, ainda podem ser encontrados após milhares de anos de sua queda. Os condritos, por sua vez, rapidamente sofrem a ação da atmosfera e rapidamente passam a ser confundidos com rochas terrestres e sua descoberta se torna cada vez mais difícil. Desta maneira, temos registros que achados de meteoritos ferrosos de milhares de anos e vários relacionados a grandes crateras como Canyon Diablo no Arizona com cerca de 1200 metros diâmetro e 50.000 anos. Encontramos inúmeros outros exemplos de grandes achados com várias toneladas como o Campo Del Cielo na Argentina ou Gibeon na Namíbia. Devido também a sua alta resistência, os meteoritos ferrosos estão entre os maiores já conhecido, pois são mais resistentes a reentrada na atmosfera terrestre. O maior foi é o Hoba West, localizado na Namíbia com 6 toneladas. O maior meteorito encontrado no Brasil é o Bendengó com 5.3 toneladas e se encontra hoje no Museu Nacional, RJ.
Outro fator que ajuda no trabalho de busca dos meteoritos ferrosos é sua alta atratividade a imãs e ótima resposta a detectores de metais. Detectores de metais são extensamente utilizados em trabalhos de busca de meteoritos e não apresentam uma boa resposta em meteoritos rochosos.
Os meteoritos ferrosos são constituídos basicamente de uma liga ferro-níquel e uma pequena quantidade de outros elementos como germânio, gálio, ósmio e irídio que, por serem elementos pesados, se concentraram na região do núcleo do corpo parental.
Há duas metodologias de classificação para os meteoritos ferrosos, a mais antiga e tradicional é através do estudo da estrutura e proporção do metal níquel na liga ferro-níquel. Para tanto, bastava realizar o polimento de uma porção do material, realizar o tratamento com ácido nítrico e verificar que tipo de estrutura ficaria evidente. Com base nessa estrutura o meteorito recebia a sua devida classificação como Hexaedrito, Octaedrito ou Ataxito. Mais recentemente outro método baseado no estudo químico ou quantitativo de elementos como irídio e gálio em igual proporção de níquel passou a ser empregado. Desta classificação surgiram as seguintes classificações num total de 14 grupos diferentes: IAB, IC, IIAB, IIC, IID, IIE, IIF, IIG, IIIAB, IIICD, IIIE, IIIF, IVA, IVB. Além desses grupos uma pequena parcela ainda não foi agrupada recebendo esta mesma denominação.
Uma interessante relação entre esses dois tipos de classificações também foi observada e relacionada na seguinte tabela:
Classe estrutural
Símbolo
Camacita [mm]
Níquel
[%]
Grupo químico relacionado
Hexaedritos
H
> 50
4.5 – 6.5
IIAB, IIG
 Octaedrito Muito Grosseiro
Ogg
3.3 – 50
6.5 – 7.2
IIAB, IIG
Octaedrito Grosseiro
Og
1.3 – 3.3
6.5 – 8.5
IAB, IC, IIE, IIIAB, IIIE
Octaedrito Médio
Om
0.5 – 1.3
7.4 – 10
IAB, IID, IIE, IIIAB, IIIF
Octaedrito Fino
Of
0.2 – 0.5
7.8 – 13
IID, IIICD, IIIF, IVA
Octaedrito Muito Fino
Off
< 0.2
7.8 – 13
IIC, IIICD
Octaedrito Plessítico
Opl
< 0.2
9.2 – 18
IIC, IIF
Ataxito
D
-
> 16
IIF, IVB

 

Antes de descrever cada tipo estrutura, vale alguns comentários em relação à principal liga ferro-níquel, constituinte deste tipo de meteorito. Os dois principais tipos desta liga encontrados em meteoritos ferrosos são a kamacita e tenita. A formação de uma determinada liga de ferro-níquel no núcleo do corpo parental vai depender da proporção de níquel presente na liga ferro-níquel, da temperatura e velocidade de resfriamento. Se a proporção de níquel na liga ferro-níquel for baixa, entre 4.5 e 6.5 %, a liga resultante será a kamacita. Se a proporção de níquel for alta como 30% ou mais em relação ao ferro, teremos somente a formação da tenita. Como a proporção de níquel num meteorito ferroso está situada entre 6 a 13%, encontramos as ligas formadas somente de kamacita, somente de tenita e uma mistura das duas ligas.
Octaedritos (O): Tipo mais comum de siderito exibindo a famosa figura de Widmanstätten quando polido e tratado com ácido nítrico. É composto por uma mistura de kamacita e tenita interligados. A interligação espacial entre a kamacita e tenita se dá na forma de um octaedro, dando o nome de octaedrito a esse grupo. O espaço entre as placas de kamacita e tenita são preenchidos por uma fina mistura granular de kamacita e tenita chamada Plessita (preenchimento em Grego). Os Octaedritos são novamente classificados de acordo com a espessura da camada de kamacita na figura de Widmanstätten.
Hexaedritos (H): Tipo formado essencialmente por kamacita. O nome hexaedrito se fere a rede cristalina onde esta liga é formada. A rede cristalina tem formato cúbico com seis lados iguais e com ângulos retos entre os mesmo formando um hexaedro. Os hexaedritos não exibem o padrão de Widmanstätten como a maioria dos outros sideritos e sim pequenas linhas finas denominadas “Linhas de Neumman”, em homenagem ao seu descobridor Franz Ernst Neumann e identificou essas linhas em 1848. Estas “Linhas de Neumman” são indicativas da deformação por choque no corpo parental. O grupo químico relacionado ao hexaedrito é o IIAB.
Ataxitos (D): Raro tipo de siderito que não apresenta nenhuma estrutura óbvia quando tratados com ácido nítrico. O termo ataxito vem do Grego “sem estrutura”. É formado essencialmente com a liga rica em níquel tenita. É o tipo de siderito mais raro e nenhuma das quedas observadas até hoje de sideritos é do tipo Ataxito.